Ivana Pascoal

"Era a presa fácil para aquele homem, tinha cheiro de fêmea e flor e sabor de alecrim. Num impulso vão de se esquivar do desejo bruto do macho, se escondia sob a semi-transparência azul dos seus sonhos de menina, guardava por dentro dos sonhos, a chave que protegia o essencial: sua docilidade, a pontiaguda sensibilidade de amor, sua secreta fragilidade; que ele, em sua crueza de bicho faminto, jamais poderia tocar. Foram dias buscando um caminho, esbarrando nas sombras de seu espírito contraditório, lutava contra o desejo de ceder, de desistir de si mesma nos momentos em que o frio era maior. Foram dias pensando em como fugir do mundo que a maturidade lhe impingira, o mundo daquele homem, daquele bicho, daquela fome. Foram horas suando saudades de dias passados, foram minutos até o ato: levantou-se do canto do sofá onde bordava suas angústias, deixou escorregar do corpo o véu, seguiu, fechou a porta sem medo, sem olhar pra trás."


"Não sabia mais o que esperar ou mesmo se devia aguardar por algo novo. Sentia uma estranha necessidade de prender o ar, de camuflar o choro, de iludir o espelho, como não possuía tais capacidades dissimuladoras, fazia o que podia para manter a calma e a lucidez frente aos espectadores do seu infortúnio. Tinha consciência desde cedo que nada atraia mais as grandes platéias do que as tragédias ou as grandes comédias, que não havia meio de escapar do palco que a vida tinha lhe preparado,. Não existia outra saída senão assumir seu desafortunado personagem e seguir com o espetáculo. Mesmo que nada apontasse para uma mudança de rumo, nutria dentro de si uma esperança de uma cor quase cinza e formato diminuto de que algum evento descortinasse em alegrias o ato final. Não sabia mais o que esperar ou mesmo se devia aguardar por algo novo, sentia uma estranha necessidade de prender o ar , de segurar a máscara até o fim. "


"Não tens cheiro, nem nome
nem me dás sossego
na noite imensa de olhos abertos
suspiro sobre teu corpo de estrela...
e me pergunto existes?"


"Ela preferia ser uma musa a uma mulher de verdade, na arte seria contemplada sua luz ou sua sombra, mas sem o julgamento do olhar comum. Queria uma vida amena, mas a vida nunca era amena e nos dias cinza, ficava cinza também, lembrava das imperfeições humanas, suas imperfeições e deseja de novo ser tinta fresca, azul, sem culpa, sem existência num mundo real , só no onírico onde tudo era possível, o amor, a vida, a pulsação firme das horas que não passavam nunca, apenas vibravam. E não permitiria que sua tela fosse em branco e preto, queria a dança das cores, a alegria ,a alegoria, a poesia desmistificada, vívida, vivida. Ela queria ser , mas não ser o indesejável, a impermanência , a imanência a um mundo frio e sem sentido, por isso sonhava com jardins muitos floridos, música de violoncelos muito afinados e sair da casca dura que os anos tinham incorporado ao seu corpo. Sonhava em ser folha verde e orvalhada e beber da chuva como quem mata a sede de oásis. Ela sonhava, mas não bastava o sonho, levantou as asas, ventilou sua alma e uma lágrima de incompreensão borrou sua visão. Pensou de novo no quadro, em ser musa, virar uma flor branca e pura e dizer ao mundo a sua volta que a vida devia ser mais. Dormiu sobre si mesma e acordou para o dia seguinte, vestiu sua roupa e foi trabalhar..."


"Deixa-me deitar entre as ondas dos teus cabelos, Sem receio aceita a ternura que te entrego de mãos semi-abertasnão por avaros sentires, mas por cuidado...No meu peito bate o profundo mistério das águasQue me enche a boca e os olhos de salrevivem alegrias e emoções contraditórias trazidas nas marés ressentidas das mágoas esqueçopara que eu seja novo para ti, devolvo tudo que me foi dado um dia,cicatrizes e rugas, partos, cansaçose alguma flor.Sou outronão guardo mais nas entranhas as velhas raízes elas sucumbiram em algum dos meus outonos sem númerosantes mesmo que chegassesassim, subitamente como orvalhos e inundasse com tua pequenina presença cada um dos meus sonhosSou outrodeixa-me seguir adiantelançar-me em âncoras aos teus pésinvadir todo espaço como areiaacariciar-te com as cores do mundoe nunca te saciare nunca morrer no mar."


"Ela cerrou-se no êxtase
com a força dos fortessem medo,
entregue acordou o desejo,
sua vida
e uma exclamação..."



"Colheste um verso ao invés de flores dos meus olhos, minha pele silvestre já não se cobre mais,o cheiro de alecrim invadiu entorpecente tudo que tocaste dentro de mim.Eis a fúria que habita minhas retinas tontas de sal:esse teu ser incandescente que docemente cega minha busca anteriorde outra atmosfera...O invólucro suave de tuas mãos que dançam sobre meus espinhosarmanezando todo éter que antes era solto no invisível e quehoje tem os contornos da tua boca silente fechada em sorrisos inefáveis."


"Ela sorveu a alma dele como vinho
Como quem se embriaga até do ar
Ele lhe deu seus olhares em troca
Desnudou suas mil faces
Tocou com seus mil e duzentos tipos de toque
E tinha tanta coisa ali, um perfume, uma ausência,
um querer...
um sorriso meio aberto, meio fechado,
como pétala de flor indecisa

Passaram-se muitas tardes, muitas esperas
ainda lá estava ela
Com o mesmo frescor de outrora
E nenhuma vaga nuvem nos olhos
Mantidos enfeitiçados pela longa expectativa
Dos encontros,
Dos sabores,
Das venturas inesperadas
Dos sonhos que mornos eperavam seu completo despertar...

Ali estava ela, pousando seus pés suavemente sobre a linha tênue,
Divisa entre dos mundos, um etéreo , intocável, como gases
de riso partindo para o céu
E um de carne, sangue, desejo,
Guardados no mesmo sorriso, naquele sorriso."
_ _ _


"Minha alma nunca foi de puro azul,
ele era o cerne em que depositei as pilastras
para que todas as outras cores explodissem,
mas não me fossem ameaça
é verdade que tudo passa entre os ossos,
sangue e veias
interferindo irremediavelmente
na coordenação motora da vida,
assim como as antenas e a fumaça
que cobrem o céu roubaram-me o sonho e ele decerto nunca mais foi o mesmo.

Por que te revestiste de teu falso gigante
e levantaste o braço como quem ergue a foice?
O poeta era eu, eu o próprio lamento,
eu que tremia de dor à noite e numa prece muda
convocava tua partida inconscientemente...

Na presença das cores que agora me habitam
e de minha alma turquesa sem medidas
não se houve mais tua voz
e o açoite ao qual me infligiste impiedosamente
hoje é sim cicatriz debaixo do pé,
às vezes dói,
mas nunca vejo.
e eis o teu incômodo de lava : não mais terás teu realejo, que um dia te concedi
embebido dos perfumes das mais caras rosas que jorravam
dos meus jardins já sem pele
mas sempre dormirá em ti como um assombro
tudo o que eu fora e que de tão grande
nunca caberia nas palmas de tuas mãos descuidadas."

Ivana Pascoal

As pequenas coisas no caminho me são sedutoras.. contém uma dose de solidão e afeto. (Ivana Pascoal)

1 comentários:

  1. Nina disse...:

    Adorei as palavras da Ivana, são lindas, puras, extremamente encantadoras!


    Parabéns, Ivana Pascoal! ;)

Postar um comentário